
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Carlos Drummond de Andrade
O amor antigo
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede.Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mais pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
domingo, 23 de novembro de 2008
Riscos para Pintura - Flores e Abelhas
Carlos Drummond de Andrade
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

sábado, 22 de novembro de 2008
Blusa Verão Amarela
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade
(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio um pouco ficou, um pouco nos muros zangados, nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana,
De teu áspero silêncio um pouco ficou, um pouco nos muros zangados, nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco de ruga na vossa testa,
retrato.
(...) E de tudo fica um pouco.
(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa o insuportável
mau cheiro da memória.
(Resíduo)
(Resíduo)
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
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